sábado, 21 de agosto de 2021

(Capitulo 1) PRINCÍPIOS DE HERMENÊUTICA

Antes de tudo, quem se dispõe a pregar a Palavra de Deus tem que buscar a correta interpretação da mesma, a fim de ter o conteúdo para pregar. Essa habilidade de entender e interpretar corretamente a Bíblia é tarefa da Hermenêutica e da Exegese. Estas duas "ciências" oferecem ferramentas para chegarmos a correta interpretação da Palavra, evitando, assim, a pregação de heresias.

Definimos hermenêutica como sendo a ciência e a arte que estuda a interpretação da Bíblia. Etimologicamente, esta palavra vem do grego, "hermeneuo", que significa explicar, traduzir, interpretar. Nas Escrituras, é usada em quatro versículos: João 1.42; 9.7; Hebreus 7.2 e Lucas 24.27. O estudo da Hermenêutica é importante porque cada a pessoa pode ter um ponto de vista diferente ao interpretar um texto bíblico. Esse ponto de vista é influenciado pelo contexto em que vive o leitor, suas experiências, necessidades ou carências, e isso nos força a ter a preocupação de tentar entender o texto por si mesmo, ou seja, independentemente de nossas experiências pessoais.

Como a Bíblia tem diversos tipos de literatura, é preciso entender como interpretar cada uma delas. Um texto poético (Salmos, por exemplo), é muito diferente de um texto Histórico (como 1 Samuel).
A preocupação do autor em um texto poético é diferente do autor em um livro histórico, de tal forma que, no histórico, ele inclui muitos detalhes sobre o contexto, data e governantes, aspectos que não são relevantes quando escreve uma poesia. A interpretação, portanto, precisa considerar esses fatores a fim de levar a uma compreensão exata do que o autor quis dizer. Vejamos, então, de forma sucinta, as principais leis da hermenêutica bíblica:

1. Princípio da Autoridade Interna
Ao estudar a Bíblia, temos que considerar, antes de tudo, que cada texto bíblico, apesar de ter mais de uma aplicação (falaremos nisso mais à frente), tem um só significado. Nossa tarefa, portanto, é buscar o sentido real do texto e aplicá-lo. O Antigo Testamento produziu o Novo Testamento e o Novo Testamento está contido no Antigo Testamento. Não é a Igreja que autentica a Palavra por sua interpretação; é a Bíblia que autentica a si mesma como Palavra autoritativa de Deus.

2. Princípio do Contexto
Contexto é a parte que vem antes ou depois do texto. Não devemos interpretar um texto sem verificar o seu contexto, pois este ajudará a compreender o significado daquele. Se quisermos pregar no Salmo 51, por exemplo, teremos que analisar o texto de 2 Samuel 12:1-15, porque o próprio cabeçalho de nossa tradução em português mostra que o contexto no qual Davi escreveu o Salmo 51 foi imediatamente após ter sido repreendido pelo profeta Natã. Estudando os dois textos juntos, podemos entender a angústia e sinceridade de Davi quando ficou contrito diante de Deus. Por isso, o contexto é importante; vamos falar de forma mais minuciosa sobre o contexto no próximo capítulo, ao estudarmos os princípios da Exegese.

3. Princípio do Texto Paralelo
A Bíblia interpreta a si mesma (1 Co 2.13). Quando um determinado acontecimento é descrito por mais de um autor, esse texto deve ser auxiliado na sua interpretação utilizando o mesmo assunto que ocorre em outras partes das Escrituras Sagradas. Por exemplo, quando pregamos sobre um texto de qualquer evangelho, temos que ver o que os outros evangelistas escreveram sobre o mesmo assunto, pois as informações complementam e ajudam a entender o texto. Vejamos um exemplo: Na primeira multiplicação dos pães (Mt 14:13-21), Jesus pergunta para os discípulos o que eles tinham em mãos, e eles afirmam que só tinham cinco pães e dois peixes (Mt 14:17). Pois bem, o texto de Lucas informa que eles foram para a região de Betsaida T<9.10) Marcos diz que precisavam ter duzentos denários (denário era o salário de um trabalhador por um dia de trabalho) para comprar alimento para toda aquela gente (Mc 6:37) e João informa que os cinco pães e dois peixes nem eram dos discípulos, mas de um rapaz que estava no meio da multidão (Jo 6.9). Veja que são muitas informações complementares, mas não estão todas em um só texto. Isso se aplica a toda a Bíblia. 

4. Princípio da Autoria do Texto
Os diferentes autores da Bíblia viveram em tempos, culturas, situações sociais e regiões diferentes. Portanto, a forma de interpretar um determinado texto será diferente da forma de interpretar outro texto, escrito por outra pessoa em outro contexto. Pedro, por exemplo, escreve sua primeira carta aos "forasteiros da Dispersão" (1 Pe 1:1), ou seja, crentes que estavam vivendo fora de Jerusalém, no meio da sociedade de gentios. Isso tem grande impacto na forma dele escrever e na forma de interpretarmos o texto hoje.

5. Princípio da Interpretação do Texto
A interpretação do texto é aquilo que a passagem quer dizer no tempo, no espaço e nas circunstâncias em que foi escritas, no estilo em que foi escrita. Alguns textos têm significado literal, outros têm significado simbólico. Um exemplo claro disso é a afirmação de Jesus em João 2.19- "Jesus lhes responden: Destrui este santuário, e em três dias o reconstruire?". Um leitor desavisado poderia pensar, como pensaram os fariseus, que Jesus estava se referindo ao Templo de Jerusalém, que levou 46 anos para ser construído.

Esses princípios, se observados na hora de entender o texto, orientarão e levarão a uma correta compreensão do texto que estaremos pregando. Por isso, a Hermenêutica tem seu valor reconhecido: ela nos aproxima do texto e do seu sentido e significado corretos, fortalece a nossa convicção na revelação que Deus fez na Sua Palavra, enaltece a Soberania de Deus que preservou a escrita até hoje, coloca-nos na linha da história da igreja, traz equilíbrio entre conteúdo (revelação) e comportamento (ética, exigência de Deus), ajuda na determinação do que é permanente e do que é temporário, evita o desvio e mantém a unidade da revelação.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

INTRODUÇÃO (curso prático de pregação)

O que é um "sermão"? Dentre todas as definições que temos, a mais simples, porém abrangente, é esta: "Sermão é uma exposição didática da Palavra de Deus". Essa definição nos mostra que o sermão não é apenas didático, porque está além de uma aula. Mas também não pode dispensar a didática, porque é uma exposição da Palavra, e essa exposição precisa ser a mais compreensível possível, uma vez que o ouvinte não tem como ler o texto do pregador. "Um sermão não é um ensaio literário, e não tem por escopo primário a publicação; antes, o seu propósito é ser ouvido, a fim de produzir impacto imediato sobre os ouvintes. Isso necessariamente implica em que o sermão deve revestir-se de certas características que não se encontram e nem são desejáveis em estudos escritos".

Apesar de normalmente o sermão ser um monólogo onde só o pregador fala, não havendo nenhuma interrupção por parte dos ouvintes, o desafio do pregador é fazer um "diálogo virtual" com estes ouvintes, no qual haja uma interação que facilite a compreensão da Palavra. Podemos entender melhor o que isso quer
dizer se imaginarmos que o pregador orou, estudou a Palavra, foi edificado e talvez até passou por profundar transformações em sua vida em virtude do que aprendeu...Esse conteúdo está fixo em seu coração e em sua mente. Quando se aproxima do piúlpito para pregar, ele tem na mente uma espécie de "quebra-cabeças" que, agora, ele vai passar peça por peça, para que o ouvinte monte o mesmo quebra-cabeças, e aprenda a mesma lição que o pregador aprendeu ao estudar o texto para pregar. Podemos dizer que houve eficiência na pregação quando o "quebra cabeças" (conteúdo) que o ouvinte tem na mente é o mais parecido possível com aquele que o pregador tinha antes de iniciar a pregação. É por isso que a didática é tão importante para o sermão. Se não houver um bom planejamento didático, o sermão será um monte de ideias desconexas, dificultando a compreensão do ouvinte.

Podemos ilustrar a afirmação acima com uma comparação de Brian Chappell, que pergunta sobre o que é mais fácil segurar na mão: um monte de areia de 100 gramas ou uma bola de tênis de 100 gramas? A resposta óbvia é: uma bola de tênis. Ao analisar a razão, ele mostra que a bola de tênis é mais fácil de segurar do que um monte de areia, porque ela tem ESTRUTURA. As partículas que a compõem estão interligadas, formando um todo, diferentemente do monte de areia no qual as partículas estão separadas umas das outras. Por isso é que a areia escorre entre nossos dedos. O mesmo se dá com o sermão; se as partes não estiverem organizadas e interligadas, o ouvinte não conseguirá captar o todo da exposição bíblica.

Neste labor do pregador de preparar o sermão biblico-, é necessário que ele entenda alguns princípios da Hermenêutica e da Exegese para corretamente interpretar a Palavra de Deus a qual se propôs a pregar. Por isso, vamos começar pensando sobre os princípios de Hermenêutica.