1.1 - A Hermenêutica mantém nosso foco na unidade da Escritura,
1.2 - e a Exegese nos habilita com os recursos metodológicos, a fim de compreender o texto e transmitilo de forma fiel. Isto nos conduz à terceira disciplina:
1.3 - a Homilética, que nos propicia a forma de fazê-lo de modo claro, fiel e eficaz.
Definição
A palavra "homilética" é a transliteração do verbo grego que significa "conversar com", "falar". Outra palavra usada é "Homilia", derivada da mesma palavra e significa "associação", "companhia", "conversação", e é encontrada somente uma vez no Novo Testamento, quando Paulo ensina que "as más companhias (homilia¹³) corrompem os bons costumes" (1 Co 15:33). A igreja latina traduziu "Homilia" por "Sermão", passando as duas palavras a serem aplicadas com o mesmo sentido¹³.
A Homilética faz com que o sermão se diferencie de um mero discurso, uma vez que o conteúdo da exposição é a viva Palavra de Deus e tem a ação especial do Espírito Santo agindo na vida dos ouvintes. Entretanto, temos que lembrar de que o texto bíblico não é o sermão; o objetivo do sermão é fazer com que o texto bíblico seja compreendido e aplicado à realidade do ouvinte. É por essa razão que a responsabilidade do pregador se torna imensa, pois sobre seus ombros está o peso de entender a Bíblia e fazê-la compreensível a seus ouvintes. Para esse propósito, o sermão precisa ter estrutura, a fim de que o ouvinte possa "montar" em sua mente as lições principais do texto bíblico.
O pregador deve organizar seus pensamentos em partes que se conectam umas às outras (como num quebra-cabeças), e ir expondo essas partes uma por uma, a fim de que o ouvinte possa ir "montando" o "quebra cabeças" em sua mente. Podemos dizer que houve um bom trabalho na pregação quando, no final aquilo que o ouvinte tem em mente é o mais parecido possível com aquilo que o pregador tinha em mente quando iniciou o sermão, Pois bem, essa é a área da homilética: oferecer ferramentas a fim de que o pregador organize o ensino bíblico e o exponha de forma clara e objetiva.
TIPOS DE SERMÕES
Com o propósito de organizar o pensamento e estabelecer estratégias de pregação, a homilética classifica os sermões em três tipos distintos:
1.1 TEMÁTICO,
1.2 TEXTUAL,
1.3 e EXPOSITIVO.
A. O SERMÃO TEMÁTICO
O sermão temático é aquele cujas argumentações derivam de um tema, independentemente do texto bíblico. Ou seja, o pregador determina o assunto sobre o qual quer pregar, e, então, busca os textos bíblicos que ensinam sobre esse assunto. Por isso é chamado de "temático" o pregador busca textos bíblicos que ensinem as lições principais acerca do tema escolhido. É claro que esse tema Precisa necessariamente ser extraído da Bíblia, senão o sermão não terá conteúdo bíblico. Cada divisão do sermão deverá ser extraída desse tema, e será fundamentada em versículos que podem estar em partes diferentes da
Bíblia. Nesse tipo de sermão, o pregador "passeia" pelos textos bíblicos buscando as instruções acerca do tema que está sendo abordado naquela exposição.
Vamos ilustrar com um esboço de sermão temático:
Tema: "A AÇÃO DO ESPÍRITO SANTO"
1.1 Agiu na Criação (Gn 1.2)
1.2 Agiu no Ministério de Jesus (Mt 3.16)
1.3 Age na Distribuição dos Dons (1 Co 12.11)
Veja que nesse exemplo escolhemos um tema e fomos buscar as argumentações na Bíblia, tendo como princípio a questão temporal:
1.1 a ação do Espírito Santo no Velho Testamento,
1.2 a ação do Espírito Santo no Novo Testamento,
1.3 e a ação do Espírito Santo hoje.
Mais um exemplo de sermão Temático:
Tema: "QUEM É JESUS"?
1.1 Jesus é o Pão da vida (Jo 6.35)
1.2 Jesus é a Luz do Mundo (Jo 8.12)
1.3 Jesus é o Bom Pastor (Jo 10.11)
1.4 Jesus é a Videira Verdadeira (Jo 15.1-7)
Já nesse exemplo não tivemos a preocupação com a busca de argumentos no Velho Testamento, mas nos limitamos a buscar respostas só no Evangelho de João Poderíamos ter textos dos demais evangelhos, mas, nesse caso, o tema foi esclarecido com textos de um só livro. Este é, portanto, o sermão temático: você escolhe um tema sobre o qual vai pregar, e busca na bíblia os textos com as argumentações que o explicarão. Obviamente, esse tipo de sermão tem vantagens e desvantagens. Podemos alistar como vantagens: a grande variedade de assuntos (porque o pregador não precisa prender-se a um único texto); a facilidade no preparo do sermão (uma vez que a escolha dos textos é aleatória e a critério do pregador); a praticidade (pois o pregador vai falar sobre um assunto que o momento pede); a versatilidade da exposição (porque para o ouvinte o sermão vai ser mais dinâmico), entre vantagens. Entretanto, o sermão temático tem desvantagens: primeiramente, corre-se o risco de o sermão não ser bíblico, caso o pregador preocupe-se tanto com o tema a ponto de "forçar" a bíblia a concordar com seus argumentos. A segunda desvantagem é o risco da parcialidade: o pregador pode selecionar textos que sejam mais favoráveis ao seu raciocínio e deixar de lado textos importantes sobre aquele tema. A terceira desvantagem é a superficialidade: como o pregador vai usar diversos textos, é claro que ele não terá condições de explorar a fundo cada um deles. Assim, ele oferecerá para o ouvinte um "panorama" geral a respeito do que a Bíblia diz sobre aquele tema, sem se aprofundar nas implicações do texto bíblico.
B. O SERMÃO TEXTUAL
Se o sermão temático inicia-se com um assunto que sai da cabeça do pregador, o Sermão Textual, por sua vez, inicia-se com um texto bíblico, do qual sai o assunto. O Sermão Textual, portanto, é aquele em que o tema e as argumentações são extraídos de um texto bíblico ESPECÍFICO, normalmente um texto pequeno (ou mesmo um só versículo).
Nesse tipo de sermão, o esboço fica estritamente limitado ao texto no qual se baseia o sermão, e o pregador evitará conduzir o ouvinte por outras passagens da Bíblia.
Passemos a ilustrar com alguns exemplos, usando os mesmos temas que usamos no sermão temático:
Tema: "A AÇÃO DO ESPÍRITO SANTO"
(Jo 16.8-11)
1.1 Convencer o Mundo do Pecado (v. 9)
1.2 Convencer o Mundo da Justiça (v. 10) 1.3 Convencer o Mundo do Juízo (v. 11)
Aqui, usamos um texto de Quatro versículos, e o sermão foi a eles limitado. Enquanto no sermão temático buscamos textos do Velho e do Novo Testamento, no sermão textual cada argumentação saiu de um versículo, na mesma ordem que o texto bíblico apresenta.
Vamos ao segundo exemplo:
Tema: "QUEM É JESUS " (Jo 14.6)
1.1 Jesus é o Caminho
1.2 Jesus é a Verdade
1.3 Jesus é a Vida
Agora, usamos um só versículo para montar o sermão, extraindo o tema e as partes do sermão somente deste versículo. Lembre-se de que no sermão temático nós usamos o mesmo tema, mas buscamos vários textos para montar as argumentações, enquanto que aqui, no sermão textual, não saímos de um só versículo.
O sermão textual é muito usado por pregadores iniciantes, e também tem suas vantagens e desvantagens. Vamos enumerar algumas vantagens. Primeiramente, o sermão textual tem a vantagem do foco: o ouvinte precisa ficar com a Bíblia aberta apenas num texto, sem precisar folheá-la, evitando-se a dispersão do pensamento. Também isso faz com que o sermão tenha mais possibilidade de ser essencialmente bíblico. Em segundo lugar, tem a vantagem de facilitar a vida do pregador, pois o tema e as ideias principais do sermão estão latentes no texto. Finalmente, o sermão textual tem a vantagem de manter o ouvinte atento, uma vez que o sermão segue a sequência natural do texto.
Entre as desvantagens do sermão textual, podemos enumerar algumas: faz com que o pregador não exponha a Bíblia como um todo, porque alguns textos não têm suas ideias tão diretas e claras a ponto de ser usadas no sermão textual; induz ao superficialismo, pois tanto o pregador pode tirar lições que o texto não ensina, como pode deixar de lado implicações importantes no conteúdo total do texto. Promove o desinteresse do ouvinte, caso o pregador não consiga extrair e aplicar as ideias mais profundas do texto. Em outras palavras, se o pregador não vai além do sentido óbvio da passagem (que qualquer pessoa percebe ao ler a Bíblia em casa), o ouvinte pode dispersar a atenção e não aprender o que está sendo ensinado.; tende a exigir do pregador muito esforço para aplicar a mensagem, uma vez que o texto é muito pequeno e tem aplicação limitada.
C. O SERMÃO EXPOSITIVO
O terceiro tipo de sermão é o Sermão Expositivo, que é aquele em que uma porção mais extensa da Bíblia é interpretada, em relação a um tema ou assunto. A própria definição do Sermão Expositivo mostra que, dos três tipos, este é o mais difícil para o pregador. Esse tipo de sermão extrai do texto bíblico tanto o tema quanto as argumentações, e vai mais além, ao analisar as implicações daquele tema no contexto total da Bíblia. Esse foi o tipo de sermão usado pelos apóstolos nas suas pregações: tomavam um texto ou um ensinamento do Velho Testamento, interpretavam não só o texto, mas também a intenção do autor (ou a intenção de Deus), e faziam a aplicação na vida dos seus Ouvintes. Observe que, no sermão textual, a análise do contexto é muito importante; mas no sermão expositivo essa análise contextual é vital e indispensável, caso contrário, o sermão deixa de ser expositivo. Por exemplo, se o pregador fizer um sermão expositivo sobre a vida e ministério de Daniel, ele terá que partir de uma análise contextual muito ampla, a fim de compreender esse distinto personagem bíblico. Como este é o sermão mais difícil, vamos nos concentrar nele, fazendo a ressalva de que partimos do pressuposto de que o leitor desta obra não teve contato com as línguas originais. virtude de trabalharmos a estrutura desse tipo de sermão de forma mais minuciosa, vamos dispensar no momento exemplos e esboços.
À semelhança dos outros dois tipos de sermão, o expositivo tem vantagens e desvantagens. Passemos a analise das vantagens. Primeiramente, podemos alistar que o sermão expositivo tem a vantagem de propiciar maior garantia de fidelidade na exposição da mensagem de Deus. Como o pregador vai expor um texto específico, analisando-o à luz do todo da Palavra de Deus, ele tem maiores possibilidades de permanecer fiel ao sentido do texto. A segunda vantagem é a imparcialidade da pregação e do pregador; como ele mostrará o sentido fiel do texto, ele não escolhe o que quer pregar. Pelo contrário, pode ser que o próprio pregador não goste da mensagem, ou sinta se incomodado por ela, mas esta é a que vai ser pregada, por ser uma exposição do sentido original do texto. A terceira vantagem do sermão expositivo é que ele evita a superficialidade na apresentação da mensagem bíblica; o texto e as implicações bíblicas daquele ensinamento são explorados ao máximo possível e dificilmente o ouvinte poderia chegar àquelas conclusões com uma leitura rápida. A quarta vantagem é que uma pregação expositiva em um livro da Bíblia livra o pregador de ficar buscando temas para cada sermão. Pelo contrário, a pregação expositiva em um livro fornece automaticamente o ponto de partida para a preparação do sermão. Outra vantagem advinda desta é que o pregador não comete o erro de evitar determinados assuntos: numa série de pregações expositivas em um livro, o próprio texto sagrado vai trazendo o que será estudado, mesmo que o pregador não tivesse a intenção de abordar aquele assunto em suas pregações. Finalmente, podemos lembrar que o sermão expositivo tem a vantagem de alimentar tanto o ouvinte quanto o pregador com alimento sólido, que não vai além do sentido óbvio do texto. E mais ainda: como o pregador vai expor a Palavra de Deus, ele fica com autoridade para pregar sobre qualquer assunto, uma vez que não será sua opinião, mas o ensino sadio da Bíblia.
Quanto às desvantagens do sermão expositivo, podemos citar algumas:
primeiro, é bem mais difícil de preparar. Exige do pregador um estudo exaustivo da Palavra de Deus e versatilidade para aplicar todo o conteúdo resultante desse estudo. A segunda desvantagem é que ele tem o risco de ser um sermão maçante, deixando o ouvinte apático com relação à pregação; isso em virtude do estudo e pesquisa propiciarem ao pregador um conteúdo muito vasto de informações, que, se não forem bem preparadas, podem transformar o sermão numa palestra intelectual acerca das Escrituras Sagradas. Daí a grande importância da Homilética.
Tendo visto os três tipos de sermões, passemos à construção propriamente dita do sermão expositivo, analisando os elementos que o constituem e descobrindo metodologias que a Homilética oferece para a elaboração dessas partes.
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