quinta-feira, 2 de setembro de 2021

(Capítulo 2) PRINCÍPIOS DE EXEGESE

A palavra exegese é uma transliteração do grego e significa "narração, exposição". É formada por duas palavras gregas: a primeira significa "fora de", e a segunda significa "conduzir, guiar, liderar". O sentido, então, é "tirar", "trazer para fora", "expor", e, aplicando ao texto bíblico, significa "extrair a mensagem do texto". Portanto, a função da exegese bíblica é, humanamente falando, trazer à luz a mensagem da parte de Deus conforme registrada nas Escrituras".

Ao pregar um texto bíblico, temos que ter a submissão à voz de Deus, e, para isso, é preciso entender o que o texto diz e qual o seu significado. A Exegese, portanto, é a "ciência da interpretação" do texto Bíblico. Essa ciência leva o pregador a aprender e a buscar as ferramentas das línguas originais em que foram escritos os livros da Bíblia: o hebraico no Velho Testamento e o grego no Novo Testamento. A boa exegese é feita diretamente na lingua original, trabalho que exige esforço e dedicação do pregador, e que nem sempre está ao alcance da maioria dos pregadores. Por isso, mesmo considerando o trabalho limitado de estudar o texto na nossa lingua sem olhar os originais, alguns princípios de Exegese devem ser observados por qualquer pessoa que queira aprofundar seus estudos e compreensão da Palavra de Deus. Vejamos, então, os princípios da Exegese que devemos aplicar na interpretação do "texto", a fim de iniciar a pesquisa para a montagem do sermão:

1. Defina bem o texto - evite pregar em textos muito pequenos (para não deixar coisas importantes no contexto) ou em textos muito extensos, pois, nesse caso, a exposição poderia ficar superficial. O que se procura num estudo é a definição da "pericope", ou seja, do bloco central de raciocínio de um determinado texto. Lembre-se de que na sua Bíblia, quando um versículo começa com uma letra em negrito, isto indica que no original inicia-se ali um parágrafo. Portanto, nem sempre a edição de nossa Bíblia em português traz os parágrafos minuciosamente divididos."

2. Compare diversas traduções - leia o
texto em outras traduções, pois os tradutores podem dar sinónimos de palavras, e isso facilita seu entendimento, Use a versão Corrigida, Atualizada, na Linguagem de Hoje, Nova Versão Internacional, entre outras e, mesmo que alguma versão não seja tão confiável, "leia tudo e retenha o que é bom." Um exemplo claro disso é o texto de Romanos 7.7, na parte final: a edição de Almeida Revista e Corrigida traz: "...porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás." E a edição de Almeida Revista e Atualizada diz: "...pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: não cobiçarás". Veja que pela simples comparação o pregador entende que "concupiscéncia" quer dizer "cobiça".

3. Analise o contexto do texto - estude o
parágrafo anterior e o parágrafo posterior. Descubra de onde o personagem bíblico está vindo e para onde está indo, o que aconteceu antes e depois do episódio que você está estudando. Lembre-se de analisar o contexto imediato (versículos imediatamente antes e depois do texto) e o contexto remoto (a ideia ou contexto do próprio livro que está sendo estudado). Por exemplo, se o sermão for sobre a "Justificação pela Fé" (Rm 5.1), o contexto próximo seria o capítulo 3, versículo 21, em que começa a argumentação sobre a Justificação, e iria até o final do capítulo 5. O contexto remoto seria o propósito do livro de Romanos como um todo, além da análise de como o processo de justificação acontecia no Velho Testamento.

4. Analise a gramática do texto - tenha em mãos um dicionário de português e anote o significado das palavras que você não conhece. Marque os verbos e faça a ligação entre eles. Separe as perguntas e as respostas que estiverem no texto, marque palavras repetidas, comparações. Jamais passe por cima de termos cujo o significado você não conheça. Se você não sabe, por exemplo, o que quer dizer a palavra "concupiscência", procure num dicionário a fim de aprender, pois do contrário jamais conseguirá interpretar a Bíblia.

5. Defina o tipo de literatura - seu texto está entre os livros históricos? Ou Poéticos? É o texto de um profeta? Está nos Evangelhos? Ou é uma carta? Essa definição é muito importante para compreender o texto. Um sermão no livro de Salmos, por exemplo, tem que ser elaborado considerando que os Salmos foram escritos para serem cantados e, como tal, devem ter interpretação de poesia. Quando o salmista diz "envelheceram os meus ossos", ele pode não querer dizer que está com osteoporose (doença nos ossos), mas talvez esteja dizendo poeticamente que ele estava abatido sem perspectiva de vida.

6. Pesquise o Contexto histórico geográfico - use um dicionário bíblico e entenda quem era o personagem principal do texto, quem era sua família, sua profissão, onde morava, para onde estava indo, quantos quilômetros andou ou iria andar, o que estava comendo ou vestindo, quem era o governador ou Rei. Anote todas as informações que o texto traz, a fim de compreender o que estava acontecendo. Consulte sempre um mapa bíblico, que pode ser achado em algumas edições da Bíblia, ou aos montes e do jeito que precisar por meio de uma pesquisa na internet. Quando Isaías diz, no capítulo 6, "No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor..." o pregador deve investigar: quem foi o rei Uzias? Em que ano ele morreu? Quem o substituiu? Quais eram os profetas que estavam em atividade naquela época? O que aconteceu de relevante naquele ano? São as respostas a essas perguntas que capacitarão o pregador a refazer o contexto histórico e geográfico para compreender o texto.

7. Identifique o tema principal - qual é a ideia principal do texto? O que o texto está ensinando? Qual o pensamento dominante? Tem ideias secundárias? Normalmente, a ideia principal do texto indicará o tema que deverá ter a pregação. Podemos citar como exemplo a parábola do Bom Samaritano (Lc 10.25-37). O tema principal não é o homem assaltado, nem mesmo o samaritano. O tema principal é mostrado pela pergunta que gerou a necessidade de Jesus contar a parábola: "Quem é o meu próximo?" (Lc 10.29).

8. Finalmente, pesquise em Comentários Bíblicos - este é o último princípio porque precisa vir por último. Ou seja, só consulte um Comentário do texto depois de passar por todos os princípios acima. Não dispense o comentário, porque é o fruto do árduo trabalho de pessoas que já estudaram o texto e escreveram suas conclusões. Lembre-se apenas de fazer a sua pesquisa, evitando a atitude preguiçosa de não estudar.

Conclusão

A hermenêutica e a Exegese são apenas ferramentas para nos ajudar a entender o texto bíblico. Até aqui ainda não temos nenhuma estrutura de sermão, mas apenas um monte de anotações e observações que nos levaram à compreensão do texto. Com a prática do ministério de pregação, você concluirá que a maior parte dessa pesquisa nem será usada no sermão, mas é material essencial para seus estudos e para sua compreensão da Bíblia. Esse estudo, quando feito de forma sistemática e frequente, levará você a ter seu próprio material de pesquisa, de tal forma que, quando for pregar num texto, possivelmente a pesquisa já estará pronta por tê-la feito num estudo anterior.

O próximo passo é começar a pensar na forma estrutural do texto, que é o início da elaboração do sermão propriamente dito. Essa é a função da HOMILÉTICA, e será estudada no próximo capítulo. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário